Sexta-feira, 17 de agosto de 2001

O Enigma da Década Defunta

"... vi ainda outra besta emergir da terra;
possuía dois chifres parecendo cordeiro,
mas falava como dragão..."
Apocalipse 13,11

Lá, de quando em vez, vez quando me sobra algum tempo, quando não sei o que fazer com tal porciúncula de tempo, de modus aleatorium emergindo subitamente do espaço e do tempo, aterrissa em minha frente uma página de jornal amarrotada, uma revista já há muito vista e revista ou miligundos de televisão. Foi-me sucedido há pouco, numa destas rentrée de cidade que costumo fazer nos finais de semana.

Desta feita, em perpassando os olhos através da revista Veja (cujas versões em diversos sítios sertânicos ficam em torno de: "Oia", "Espia" e "Assunta") de número 32, do mês VIII, dei-me de semblante com um artigo que muito me causou espanto aquele negócio. A peça (de livre e bela redação) vem estampada em uma duplapágina onde superiormente à esquerda vem o cabeçalho, à direita dois jatos da Fedex (foto) e no centro, numa grande foto retangular, numa espécie de anfiteatro repleto de espectadores e em primeiro plano centrado e no céu, algumas centenas de bonés brancos voando no sentido Terra-Espaço-Cósmico – o que ao primeiro impacto dá a impressão de um ataque repentino de uma nuvem de discos voadores – e finalmente, na terra (no chão do anfiteatro) correspondendo matematicamente ao número de bonés voadores, em grande euforia uma legião de cadetes, comemorando o recebimento do diploma em festejo garrido emoldurado pela ufania de uma multidão cega, surda e acorrentada ao provisório na temporalidade de uma democracia genoterttiomunduscida. Tudo isto situado em algum lugar do território norte-americano.

Pois bem, na atmosfera desta paisagem, em manobras rápidas e precisas, navegava o discurso de uma articulista da citada mensária, tratando do grande avanço e enriquecimento da sociedade norte-americana alcançados na última década, segundo dados fornecidos pelo escritório do censo deste país. Entre outras, é exibido, sempre em percentuais, as melhorias nas áreas de moradia, renda anual per domus, per família, educação etc. Diz lá, que na história daquele povo, esta foi uma década sem precedentes, onde o país cresceu coisa de um brasil (embora, eu não entendendo de economia, suponho seja uma nova moeda interterttiomundi) em cada biênio. O que nos dá em uma década a quantia de crescimento de cinco $br@º (arroubo).

– E onde é que está o espanto, meu bom legionário? Indaga uma voz suplicante e de fôlego escasso.

– O espanto vem justamente no tópico onde o artigo já pelas conclusões reza que o acima exposto, trata de um tremendo contraponto que enreda e embaça o entendimento dos mais hábeis doutores em armadilhas do vigente sistema econômico; diz mais ainda: que a sociedade norte-americana, economicamente, entrou num movimento uniformemente acelerado (numa espécie de ad infinitum) de total incompreensão por parte de todos aqueles que militam na área da economia internacional. E que justamente por este impasse intelectivo (!!!) o governo dali resolveu repetir o censo, não mais em escala decenal, todavia, anualmente. Então, em eu lendo essas coisas, resolvi ajudar aos imberbes puellas cornucopicus doctus daquele setentrião, a decifrar este "dificílimo" enigma, propondo-lhes uma pequena fábula que com certeza jamais será lida pelos mesmos (no que pese a inexorável onipresença da via internética) vez que desconhecem por completo a existência da língua de Camões:

O Puma e os Cabritos

Era uma vez um pequeno puma e vinte e dois cabritos, que viviam em um mesmo chiqueiro com três divisões. No começo tudo ia bem. Um dia, um lobo associado com umas cabras e uns ursinhos de olhos apertados e de aparência inocente que habitavam o chiqueiro do outro lado da lagoa, armaram uma briga com alguns vizinhos seus e com o pequeno puma. O lobo e cia perderam. A partir de então, no chiqueiro do lado de cá da lagoa, toda manhã aparecia um cabrito faltando uma perna, outro uma orelha, outro um pedaço do quarto, de maneira que num dado tempo, os cabritos estavam todos magros, cochés, completamente mutilados e sem, às vezes, as mínimas condições de irem ao pasto. E o puma estava grande, gordo, forte e inteiro de patas, cauda, orelhas e corpo. E em noite de lua cheia, o puma gordo e forte, sentado de cara para cima, olhando a lua, exclamava: Não entendo este enigma! Porque os cabritos estão tão depauperados e eu tão gordo? Não entendo, não entendo!!!

Lá, de quando em vez, vez quando me sobra algum tempo, quando eu não sei o que fazer... as vezes eu me esbarro com coisas assim.


Elomar Figueira Mello

PORTEIRA Oficial de Elomar Cor-el Agenda
Voltar
PORTEIRA Oficial de Elomar | porteira@elomar.mus.br
Estado do Sertão | Cor-el | Biografia | Curriculum Operae | Modus Vivendi | Discografia | Locanda