Quinta-feira, 2 de junho de 2016

Prefaciando

De começo, vou falar ou escrever um pouco sobre este povo descarado (que povo?) tão celebrado pelo competente e pretensioso Gilberto Freire. O mesmo povo + ou - decodificado pelo saudoso Darcy Ribeiro; povo que vem a ser aquele mesmo povo decantado pelo grande pescador da Ilha, nosso querido ilhéu João Ubaldo. Que saudade, João!

Então, que povo descarado é este?       

- Eh! É, o POVO BRASILEIRO – Nosso povinho, povículo, polvilho leve e manêro, tanto que a qualquer brisa, monção ou sopro de doutrina alienígena se deixa levar como pragrana, cisco da beira dos caminhos, desde que se trate de omnia res nostram non est. Com escusas da citação em latim mezzopermissivo - pater linguae nostra.
  Pois sim, este Zé Polvilho que há muito (antes de passar a ser Z.P.) perdeu por completo o sentimento pela res civis: este Zêpê que não tolera o Brasil, que ama e “adora” tudo que diz respeito à coisa que vem de fora principalmente aquelas que chegam dos Estados Unidos da América setemptrional. Estou me dirigindo a esta geração bastarda e sua prole, filha do Brasil com uma rameira de beira de alguma estrada desse mundão largo e imundo. Esta geração que não tolera nossa língua, nossos poetas, nossa música; o choro, o xaxado, o baião, o cateretê; nossos dicumeres, beberes, refrigerantes extraídos de nossa miríade de frutas; nossa bandeira “auriverde pendão da esperança” - Esta geraçãozinha de mer..  que detesta, despreza e vomita a nossa “última flor do Lácio culta e ultrajada” - segundo bem propôs o nobre paraibano Rebelo - querida e amada Língua Portuguesa. Geração frôxa e pusilâmine que tergiversa quando inquirida sobre o porquê do alijamento de nossos valores e a conspurcação do gosto pátrio, sendo contudo habilíssima na respostação que embora pretensa e escoiceadamente “vazada” em nossa língua, pouco se entende face à poluição causada pela infestação fohem (fanha) da língua inglesa que tolda o fulgor, de nosso vernáculo harmonioso.

Zêpê que incha não só o periferium de megápolis e minípolis do meridião, austral e aquilão de nosso país, como também as universidades e faculdades de plástico que pululam por todos os cantos e a botão de sola, abarrotadas de catedráticos charlatas que enfiando enrolado no bolso da bunda da calça, um pasquim qualquer de tendência para a sinistra, se vão por aí xotando, pretendendo ser intelectualóides.

Chega de: Estou me dirigindo a ... chega!

Contudo peço vênia para só mais um:
Esta geração que teve a indignidade de ponhá uma quadrilha de malfeitores incompetentes para “tomar conta”, conduzir, dar rumos aos destinos de um país tão belo, tão rico que é este colosso das Américas, chamado Brasil. Então, a corja de Musópolis com o sufrágio positivo do Zepovin da banda de cima, sobretudo deste meu nordeste lascado e morta fome (desta vez o Zépê da banda do sul se negou a dar o voto. Parabéns!) promulgou a lei que desarma todo o povo brasileiro para que os facínoras irrecuperáveis, os lombrosianos (armados até os dentes) tomassem conta - no “país sem dono” - das avenidas, becos e ruas urbi et campus...” *

Esse povinho que em quadra não mui pretérita empunha um pendão, uma bandeira, cantava um hino, - bela canção – invocando o embrião de uma pátria mater, de um grupo que, face à grandeza inigualável de seu território - florão do planeta – conquistado a ferro e a fogo por valentes bandeirantes e denotados entradistas pretendera aos poucos ir-se crescendo e crescendo em valores até atingir o estágio de uma civilização - A Grande Civilização do Equador, como sonhara o nosso saudoso Bautista Vidal.
Que pena (!) que aquela ordem de bravos cavaleiros, (entre eles meus avós) tenha se conspurcado tanto e tanto a ponto de chegar a esta degeneração zepovin – massa heterogênea, gosmenta, formada por pobres (e ricos), desprotegidos analfabetos – rebanho feito irracional sob o comando falacioso de uma subespécie abjeta que habita entre nós, pretendendo nos impor “na tora”, usos, costumes e valores (que não são nossos valores) de povos alienígenas que perderam a esperança, a fé e o amor, restando-lhes apenas, como elã de verticalidade, o domínio dos povos e a escravidão da humanidade.

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Ficou interrompida por tempo indeterminado a gravação do nosso último disco - Riachão do Gado Brabo - porque três assassinos habitantes da irresponsável cidade de Salvador, por causa de um celular acertaram bem no rosto de nosso amigo Fernando Gundlach. Peço a Deus, não os daquela cidade, opere o milagre, não permitindo que ele morra, continuando entre nós com inteireza.

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Agora, uma curta narrativa sobre a publicação neste hebdomadário, da peça abaixo intitulada “Um País sem Dono”.          
Em julho próximo passado, recebi o convite do diário Folha de São Paulo para escrever alguma coisa a ser publicada num caderno especial do mesmo, conhecido pela antonomásia de Ilustríssima. Então, nossa produção, como de sempre, inquiriu ao anfitrião convidante sobre temática, limitações, tesouras, amarras, censuras etc. pelo que obtivemos respostação favorável ao nosso estilo - dando-nos liberdade plena em tudo. Enfim, que eu estivesse à vontade, livre libérrimo! Escrevi e imediatamente enviamos o escrito com certa urgência, vez que a publicação do mesmo seria ainda durante a permanência da exposição de uma pequena parte da nossa obra que estava sendo proposta num competente trabalho da equipe artística do Itaú Cultural, intitulado de OCUPAÇÃO ELOMAR, sediada num espaço cultural do banco, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Após, ficamos esperando um exemplar da publicação para ser guardado no espaço físico Arquivos Implacáveis da Casa dos Carneiros, sediado aqui no Sertão, sob os auspícios do mesmo banco.   Depois de um meio demorado silêncio do pessoal de lá, nossa produção cobrou o resultado da publicação, ou não, da peça enviada. Veio então uma resposta negativa cercalourençamente justificada com alguns “não era bem assins” e pronto.

- Não tem problema, não seja por isto. A benquerência continua.

Ali pela saldosa quadra dos mil novecentos e oitenta e uns caroço, após ter proposta uma cantoria em um qualquer daqueles teatros na paulicéia, fomos para um restaurante (também qualquer) as forças restaurar.  Éramos - bem me lembro - Miguel Ventania (de Almeida) jornalista poeta, meu amigo, seu chefe de redação Odon e um punhado de jornalistas outros meus desconhecidos, mais ou menos cúmplices. Pois bem, vira e mexe, mexe e vira, seu chico sucupira, ali pelas tantas, após muito proseado na noite adiantada, a conversa da roda rumou para a banda podre da política. Pelo que eu, em perdendo completamente a graça e o interesse, incontinenti em espírito pensante, alcei vôo me ausentando dali, indo me esbarrar em pouso nas grandes planícies - multicoloridas com todas as nuances da quarta cor primária e infestadas de coisas e seres viventes do IV Reino da Criação - em Talmena Lari, uma estrela sólida e de luz congelada que existe na bela galáxia de Betapituna   lá pelos periferium do espaço euclidiano. Ufa! Fique meio zonzo! Verdade!

Em certa altura daquela grande ausência, onde eu meio dormitando, meio sonhando e meio acordado, me espantei ao ouvir a mais absurda dentre todas as incongruências possíveis, de existir. Foi quando eu me vim em si (em mim!) justamente porque no foco da conversa da mesa, pairavam elucubrações do mais alto grau paroxista da insensatez por parte daqueles comensais naquela noite tão distante; estonteados pelas bordoadas da ditadura vigente de então, porquanto, debilóides e bebandas, os comensais cogitavam de (vejam só que brutalidade!) propor um tal sujeito para pilotar o Galeão Brasil!

Naquela noite, ali eu já pressentia a tormenta tempestuosa que viria arruinar a quilha do brigue, contudo, hoje compreendo mais perfeitamente a displicência (no sentido não lácteo da expressão) a irresponsabilidade e a grande mentira que é toda imprensa ou comunicação jornalística - ouvida, lida, vista ou televista - que há no mundo: Livre e Independente, este é a epígrafe de todas elas. Grande mentira, nenhuma imprensa tem compromisso com a verdade, vez que toda ela é sectária e pior: trata-se de uma indústria como outra qualquer, que fabrica idéias, pensamentos e opiniões para serem comercializados em troca de grana ou moedas outras que recebem daqueles que forem beneficiados com suas displicências, suas irresponsabilidades e suas mentiras.  

Não se tampa o sol com o dedo! Assim, teria se lastimado mĩa saudosa mãe. Bastaria o famoso diário ter respostado: - Cavaleiro, não deu para publicar. Tua amarga litânia, nênia elegíaca e dolorosa não está soando conforme nossa moderna dodecafonia dissonante e serialista.  

Lastimo profundamente de verdade, por se tratar de um periódico mesmo que ainda polpudo nunca foi um jornalaço e mais ainda pelo fato de o mesmo ter sido no passado, tribuna de valentes jornalistas que se dignaram arriscar dar pouso e asilo à pequena leva de mias canções, pombas retirantes, recém chegadas das terras secas e desoladas do setemptrião de nossa terra.

Porquanto, sem qualquer intenção de agravo, eu peço desculpas, mais pelo bem de um pequeno punhado de malungos, vamos “publicar” (!) nas páginas especulares de nosso hebdomadário O Estado do Sertão, este nosso “Um país sem dono”.

Casa dos Carneiros, minguante, outubro de 2015.

Elomar

* O prefaciando reticente entre aspas foi extraído da obra: Um Belo País, Onde Mora Um Povo Descarado, Governado por Governos Descarados...

Nota da edição: A peça “Um País sem Dono” que o diário Folha de São Paulo não publicou na sua coluna “Ilustríssima”, será divulgada em breve aqui, neste hebdomadário.
Este “Prefaciando” foi escrito em outubro de 2015 e, por motivos vários, somente publicado agora em 02 de junho de 2016.

 


Elomar Figueira Mello

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